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Espiritismo sem Distorções

Por Cláudio Amaral

Por sermos uma Doutrina com só 151 anos, pouquíssimos de nós tivemos a oportunidade de mais de uma encarnação como espíritas. Na maioria temos uma grande influência de múltiplas vivências em outras correntes religiosas, com seus dogmatismo, ritualismo e misticismo. Daí a insistência de transplantarmos à prática espírita, aceitações estranhas ao seu corpo doutrinário.

Associado a isto, a grande maioria dos centros espíritas dificulta a implantação da fé raciocinada, limitando suas atividades doutrinárias em torno de reuniões monótonas e exaustivamente expositivas, sem a participação e a troca de idéias de todos, como previu o próprio codificador no item 347 de O Livro dos Médiuns: “Dessa discussão, a que cada um dá a contribuição das suas próprias reflexões, saem os esclarecimentos que passam despercebidos numa leitura individual”.

Toda esta realidade supra mencionada favorece à falsas interpretações, distorcidas pelo sentimentalismo e pela primariedade dos pensamentos, representado por crendices e superstições ( O Livro dos Médiuns-Cap II-1ª Parte). Cristalizações de gerações em gerações, que se absorve por formação. Uma dessas criações originadas em nossas raízes históricas é a figura do preto-velho, que simboliza a dor dos antigos africanos, feitos escravos, submetidos à humilhações e violências. Todos carregamos a marca da responsabilidade dessas atrocidades e, por isso, santificamos a imagem do preto-velho, em total desprezo ao “branco-velho”. Uma forma de nos redimirmos como povo, por nossas injustiças. O nosso animismo, através do inconsciente, alimenta tais “roupagens mentais”, que são aproveitadas por espíritos influenciáveis por estas sugestões.

Na Revista Espírita de junho de 1859 temos a comunicação de “O Negro Pai César”. Tal espírito em nenhum momento de seu relato se caracteriza na condição de cansado, alquebrado pelos anos ou através de uma fala embaralhada e incompreensível. Pelo contrário, reafirmou a dor pelo preconceito vivido em sua última existência , denotando até certa mágoa. E, ainda, a certeza e alívio de não ser mais negro, por ter alcançado a situação de espírito liberto. Tal manifestação difere bastante do que estamos acostumados a ver nos cultos afro-brasileiros dos chamados pretos-velhos, não há como confundir. Foi o relato de um espírito sobre sua vida sofrida e a impressão que esta experiência lhe proporcionou. Fato comum às comunicações mediúnicas espíritas, como forma de aprendizado a todos nós. Diferente da ocorrência rotineira de certas manifestações, que traduzem apego dos manifestantes pela rotina terrena, com todas as suas características rudimentares.

A convicção espírita tem seus próprios métodos para compreender a realidade do fenômeno mediúnico. É preciso nos aprofundarmos no seu conhecimento, a fim de não distorcermos a natureza das suas características.

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